Artigo: O dia seguinte

Vivemos um momento dramático com a evolução do coronavírus, que mal atingiu seu pico no país. O primeiro desafio é estruturar a rede de saúde para o aumento da demanda, observar as medidas de prevenção e adotar políticas públicas para assegurar a sobrevivência dos desassistidos e também das empresas e dos empregos. Boa parte dessa agenda parece encaminhada. Em paralelo, contudo, o país precisa se organizar para enfrentar a profunda crise econômica que se seguirá à pandemia, e que já começa a nos atingir.

O FMI já comparou a atual crise à Grande Depressão de 1930. O Fundo prevê uma retração da economia mundial de 3% e da brasileira, de 5,3%, a maior desde 1940. Essa recessão atinge o Brasil e o Espírito Santo em situação ainda mais grave do que a do resto do mundo, o que significa que teremos que trabalhar mais, e com urgência: não há tempo a perder, como veremos.

O Brasil mal tinha se recuperado de outro grave período recessivo, com retração do PIB de -3,5% e -3,3% em 2015 e 2016 e crescimento na faixa de 1% até o ano passado. No mesmo período, o desempenho do Espírito Santo foi ainda pior, com queda -5,2% em 2016 e outra de -2,0% no ano passado, resultados abaixo da média nacional.

Nossos desafios, portanto, são ainda maiores. A crise da pandemia vai passar, e precisamos nos preparar para, lá na frente, sairmos mais fortes, em melhores condições de competitividade em relação ao mercado global.

Para isso, nossas lideranças políticas devem o quanto antes assumir a missão de conduzir uma intensa agenda de reformas e mudanças em marcos regulatórios, com visão de futuro, pensando no país, deixando de lado disputas políticas menores que só prejudicam o Brasil.

O governo federal acaba de lançar um programa de obras públicas, com previsão de aporte de R$ 30 bilhões até 2022, já chamado de o Plano Marshall do governo Bolsonaro. É uma iniciativa importante, mas com valores insuficientes e num país sem capacidade de investimentos. A alternativa é atrair capital privado.

Precisamos ir além, com reformas estruturais, para atravessarmos o atoleiro, que tem sacrificado todos os brasileiros, seja pelo desemprego crescente, seja pela queda da renda média. A taxa de desemprego fechou o primeiro trimestre em 12,2%, atingindo 12,8 milhões de pessoas, índice que pode dobrar com a crise do coronavírus, como estimou dias atrás o secretário de Desestatização do governo federal, Salim Mattar. Ou seja, podemos fechar o ano com cerca de 25 milhões de desempregados, uma tragédia.

O receituário é bem conhecido e vem sendo debatido há tempos: uma reforma administrativa, para reduzir o custo do Estado e torná-lo mais eficiente, e uma reforma tributária, para simplificar a arrecadação de impostos. Devemos declarar guerra à burocracia, que dificulta a operação das empresas e favorece a corrupção, gerando uma rede para vender facilidades.

O país deve ainda promover privatizações, no momento adequado, e estimular investimentos em infraestrutura. Em março, em nome da Federação das Indústrias do ES, enviamos ofícios a nossa bancada federal sugerindo a apreciação de uma série de medidas que podem alavancar investimentos, como a nova lei do gás (PL 6407/2013), os novos marcos regulatórios de

ferrovias e do saneamento básico e a readequação da legislação ambiental, para assegurar maior eficiência, previsibilidade e isenção técnica nas análises, reduzindo também a burocracia.

Temos uma oportunidade ainda no programa de incentivo à cabotagem, conhecido como “BR do Mar”, que poderá dar mais competitividade ao setor, subutilizado no país – transportamos somente 11% das cargas por cabotagem, sendo 90% disso relacionado a óleo e gás, enquanto no Japão esse volume é de 44% e na União Europeia, de 32%. O Espirito Santo, se quiser, pode tornar-se um protagonista nesta transformação e reforçar a nossa vocação logística: basta adotar postura competitiva, do ponto de vista tributário, no bunker de combustíveis.

Como se vê, o horizonte é nebuloso, a agenda é extensa, mas há solução. O caminho é arregaçar as mangas e trabalhar muito, pensando no país em primeiro lugar. Com a disputa política hoje instalada no Brasil só teremos um perdedor: o brasileiro, que já não suporta mais esse jogo.

Esperamos que nossas lideranças políticas tenham a coragem e a competência para tocar essa agenda. Esperamos que compreendam que foram eleitos para cumprir o que prometeram na campanha, quando falavam em lutar pelo Brasil e pelos brasileiros, não por interesses políticos menores. Temos muito trabalho pela frente. Mãos à obra!

Léo de Castro é presidente da Findes

 

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