Artigo – Menos horas trabalhadas, mais custos: o risco de um atalho econômico

Credito: José Paulo Lacerda/CNI

Nas condições atuais, a estimativa é que a redução da jornada para 40 horas semanais gere aumento de até R$ 267,2 bilhões anuais nos custos das empresas brasileiras

Estamos diante de um momento decisivo para o setor produtivo brasileiro. Há anos o país vem se distanciando das economias mais eficientes do mundo, acumulando um desempenho insatisfatório em produtividade. Embora o Brasil seja a 10ª maior economia do planeta, ocupa apenas a 94ª posição em produtividade por hora trabalhada. O dado reforça um alerta: seguimos perdendo competitividade em um cenário internacional cada vez mais exigente.

O debate sobre a escala 6×1 e a redução do limite semanal de jornada, que voltou ao centro da agenda nacional, não ocorre em um momento favorável para o país. Trata-se de um tema sensível, que envolve qualidade de vida, saúde mental, competitividade, desenvolvimento e impactos econômicos.

De fato, o tema é legítimo e necessário, mas a resposta não pode ser simplista. Ela exige amplo diálogo e amadurecimento técnico, e não tramitação apressada. Mudanças estruturais dessa magnitude precisam ser debatidas com profundidade e responsabilidade.

Ao menos quatro propostas tramitam no Congresso Nacional, prevendo a redução do limite de jornada de 44 horas semanais para 40 ou 36 horas. Sem ganhos concretos de produtividade, essa medida representa um atalho perigoso e potencialmente custoso para o país. O Brasil já apresenta jornada média semanal de 38,9 horas, abaixo da média global (39,9 horas), da América Latina (40,4 horas) e dos países do G20 (42,6 horas), segundo a ILOSTAT, base de dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Entre 1981 e 2024, a produtividade brasileira cresceu apenas 0,9% ao ano, percentual muito inferior ao de economias que hoje lideram cadeias globais de valor, como China (8%), Índia (5,1%) e Coreia do Sul (4,2%). Em 2025, o trabalhador brasileiro produziu cerca de quatro vezes menos que um estadunidense ou europeu e quase oito vezes menos que um irlandês. Estamos, portanto, em uma corrida contra o tempo para reverter um quadro estrutural de baixa eficiência.

Nas condições atuais, a estimativa é que a redução da jornada para 40 horas semanais gere aumento de até R$ 267,2 bilhões anuais nos custos das empresas brasileiras. No Espírito Santo, em um cenário de contratação de novos empregados, os gastos adicionais com mão de obra formal chegariam a R$ 2,96 bilhões ao ano, aumento de 4,6% nos custos.

Já se as empresas optassem pelo pagamento de horas extras, o aumento das despesas com pessoal seria de R$ 4,43 bilhões por ano, elevação de 6,9% nos custos trabalhistas. Todavia, em um ambiente já marcado por baixa eficiência estrutural, qualquer redução compulsória da jornada, sem aumento proporcional de produtividade, eleva automaticamente o custo por hora trabalhada.

A maior incidência recairá sobre micro e pequenas empresas, responsáveis por 40% dos empregos formais no país e 45,1% no Espírito Santo. Elas tem o maior coeficiente de trabalhadores com jornadas superiores a 40 horas semanais. Para muitas delas, a elevação do custo da hora trabalhada reduzirá margens, desestimulará investimento e comprometerá a capacidade de expansão das empresas. O resultado tende a ser repasse de preços para o consumidor.

É evidente que o mundo do trabalho está em transformação e que novos debates são necessários e legítimos. No entanto, mudanças estruturais exigem base técnica sólida e responsabilidade econômica. A negociação coletiva, entre sindicatos laboral e patronal, já se mostra instrumento eficaz para ajustar jornadas conforme a realidade de cada setor. Entre julho de 2024 e julho de 2025, quase 6,2 mil acordos coletivos no Brasil trataram de redução ou prorrogação de jornada, segundo dados do Ministério do Trabalho.

O verdadeiro desafio nacional é produzir cada vez melhor. O Brasil precisa transformar produtividade em projeto de Estado e isso inclui olhar para educação técnica de escala, inovação incorporada às cadeias produtivas, simplificação tributária efetiva, segurança jurídica e ambiente favorável ao investimento. Países que prosperaram fizeram essa escolha com clareza e consistência. Se quisermos ampliar direitos de forma duradoura, precisamos primeiro ampliar nossa capacidade de gerar riqueza.

A agenda do futuro é elevar eficiência com responsabilidade intergeracional para que o progresso seja sustentável e compartilhado. Reduzir jornada sem elevar produtividade pode produzir ganhos imediatos para alguns, mas impõe riscos duradouros a toda a economia. Estamos falando de impactos na geração de emprego, no investimento e no crescimento econômico. Não podemos comprometer o futuro do país perdendo ainda mais competitividade.

Publicado em A Gazeta, no dia 4 de março de 2026.

 

Mais informações | SAC – Serviço de Atendimento ao Cliente

Telefone: 0800 102 0880   Whatsapp: 27 99841-2270(clique aqui)
E-mails: [email protected] | [email protected] | [email protected] | [email protected]

RELAÇÕES COM A IMPRENSA | FINDES  

Siumara Gonçalves – Assessoria de Imprensa
Telefone: 
(27) 99623-8089
E-mail:
 [email protected]

Anderson Barolo – Assessoria de Imprensa
Telefone: 
(27) 99623-8089
E-mail:
 [email protected] 

Conteúdos Relacionados

Conteúdos Recentes

19 de agosto de 2026
Posicionamento | CNI e FINDES: não é razoável colocar em votação a redução da jornada de trabalho em pleno período eleitoral
17 de agosto de 2026
Sonho adiado por mais de 30 anos se torna realidade com EJA do SESI
13 de agosto de 2026
Estudo da FINDES e do Bandes revela potencial do ES para transformar resíduos em energia limpa